Em ‘ano zero’ com o City, Bahia tem muito dinheiro, pouco futebol e salvação no apagar das luzes
O “ano zero” do Grupo City no Bahia acabou em alívio, mas o filme foi dramático do início ao fim. Na última quarta-feira, o Tricolor goleou o Atlético-MG, na Arena Fonte Nova, e superou as previsões de azarão na última rodada do Brasileiro, após uma campanha abaixo da expectativa.
O investimento recorde na montagem do elenco não significou salto de qualidade de uma equipe que mais ouviu vaias que aplausos do seu torcedor, mas que teve resiliência para se manter na Primeira Divisão, mesmo que no apagar das luzes.
Objetivo e trabalho
À frente do futebol do Bahia desde o início desta temporada, o Grupo City não traçou metas ousadas. Pés no chão, o Grupo sempre deixou claro, por meio do então técnico Renato Paiva, que o ano de retorno para a Primeira Divisão é sempre complicado e que o principal objetivo era a manutenção na Série A, algo conquistado apenas na última oportunidade possível.
E olha que não faltou dinheiro, nem apoio. O Grupo City investiu mais de R$ 100 milhões na aquisição de novos jogadores (recorde na história do clube), trouxe Rogério Ceni, técnico multicampeão, para o lugar de Renato Paiva, e fez ajustes no elenco ao longo da Série A. Além disso, o Tricolor foi empurrado pelos seus torcedores, que ultrapassaram a marca de um milhão de pagantes no ano.
A salvação recheada de drama não aconteceu por acaso. Os problemas do Bahia não surgiram no Campeonato Brasileiro. Desde o início desta temporada, o elenco tricolor indicava fragilidade ao colecionar resultados frustrantes e dar dor de cabeça ao seu torcedor. O que dizer das derrotas por 3 a 0 para o Fortaleza e a goleada por 6 a 0 sofrida para o Sport, pela Copa do Nordeste? Não por acaso, a equipe terminou eliminada na primeira fase do Nordestão.
A diretoria tricolor pode até lembrar do título do Campeonato Baiano, é verdade, mas o desempenho em campo diante de equipes de nível técnico muito baixo esteve longe de dar confiança para a parte decisiva da temporada. Tanto que o então técnico Renato Paiva seguiu pressionado.
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Melhor colocação: 9º lugar

Kanu em Grêmio x Bahia — Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia / Divulgação
O Bahia chegou ao Brasileirão com 19 jogadores contratados. Contudo, a equipe largou com duas derrotas na competição (Bragantino e Botafogo) e desde o início deixou claro que a sua briga seria na parte de baixo da tabela de classificação.
A melhor colocação do Bahia ao longo desta edição do Campeonato Brasileiro foi o 9º lugar, após a quarta rodada. Depois disso, a equipe figurou na parte de baixo da tabela de classificação quase que o tempo todo.
Há quem lembre como bons momentos a vitória sobre Palmeiras na Fonte Nova, a goleada diante do Bragantino, a batalha maluca contra o Goiás e os triunfos sobre Internacional e Fortaleza (os dois últimos cheios de desfalques). Além, claro, do resultado histórico sobre o Corinthians e da salvação diante do Atlético-MG. Mas, no geral, dá para contar com facilidade os bons momentos do Bahia nesta edição do Brasileiro.
Correções de rota

Gilberto chegou ao Bahia na segunda janela de transferências — Foto: Divulgação/EC Bahia
O Bahia apresentou uma série de problemas ao longo do Brasileiro: deficiência defensiva, fragilidade das laterais, ausência de substituto para Cauly, um centroavante mais confiável para ser referência e por aí vai. E a segunda janela de transferência atacou algumas destas lacunas.
No meio do ano, o Bahia fechou as contratações dos laterais Gilberto e Camilo Cándido, que rapidamente se tornaram titulares e agradaram nos primeiros jogos. Contudo, eles caíram de rendimento ao longo do Brasileirão, e o segundo, inclusive, perdeu a posição para Luciano Juba, que também chegou no meio do ano e oscilou – no fim foi decisivo para a permanência.
O Bahia ainda contratou na janela de meio de ano Rafael Ratão, Léo Cittadini e Adriel, mas nenhum deles teve muito impacto para a equipe saltar de produção. O último, um goleiro, sequer jogou.
Realidade de protestos

Organizada protesta contra Renato Paiva — Foto: Divulgação/Redes sociais
Não foram raros os protestos dos torcedores do Bahia diante da má fase do time. O primeiro foi logo em fevereiro, em desembarque logo após a goleada sofrida para o Sport. Também houve manifestação na frente do Centro de Treinamento do clube, além de inúmeras nas arquibancadas da Arena Fonte Nova e nas redes sociais.
Tudo isso minava cada vez mais o técnico Renato Paiva, principal alvo dos protestos. E chegou a um ponto intentável para o treinador, que ficou magoado após torcedores fazerem uma montagem e colocarem orelhas de burro em uma foto dele.

Renato Paiva em Bahia x Vasco — Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia / Divulgação
Em setembro, Renato Paiva pediu demissão e deixou o clube após 49 jogos, com 19 vitórias, 15 empates e 15 derrotas, (aproveitamento de 49%) e deu lugar a Rogério Ceni. A impressão é de que a troca forçada, após 22 rodadas do Brasileirão, poderia ter acontecido bem antes.
Ceni inicia com sorrisos e pensamento alto
Depois de todo ambiente turbulento com Renato Paiva, o Bahia apostava no multicampeão Rogério Ceni para salvar a equipe do rebaixamento. De início, o treinador buscou trazer leveza ao ambiente do Tricolor, com uma entrevista de apresentação cheia de sorrisos e brincadeiras.
Rogério Ceni também chegou ao Bahia com pensamento além da luta contra o rebaixamento e que agradou aos atletas. A ideia era buscar uma das vagas na Copa Sul-Americana de 2024.
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Com Rogério Ceni, o Bahia iniciou com uma sequência de quatro vitórias nos primeiros seis jogos. A equipe que antes sofria até mesmo quando ganhava com Renato Paiva, agora competia e fazia jogos duros. Mas também teve a sua instabilidade.
Time de Ceni também sofre

Biel lamenta empate durante Bahia 1 x 1 Athletico — Foto: Agif
O desempenho “tudo ou nada” com Rogério Ceni dava resultado, mas era arriscado. O que dizer do 6 a 4 maluco diante do Goiás? O poder de reação pode até ser exaltado, mas a facilidade com que o Tricolor era vazado também chamava a atenção.
O Bahia sofreu na reta final do Campeonato Brasileiro e deixou escapar resultados cruciais. O time até teve um respiro com a goleada histórica e improvável sobre o Corinthians, em resultado que voltou a depender apenas de si, a três rodadas para o fim da competição. Mas a felicidade durou pouco.

Thaciano comemora gol sobre o Corinthians — Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia / Divulgação
Tão pouco que o Bahia pareceu não “voltar de São Paulo” para aproveitar goleada sobre o Corinthians. Com doses extras de crueldade ao seu torcedor, a equipe deixou de somar pontos cruciais diante de São Paulo e América-MG e voltou a não depender apenas de si para escapar da degola.
Milagres acontecem
O destino deu ao Bahia uma nova chance de busca por uma redenção, desta vez contra o Atlético-MG, na Arena Fonte Nova. Logo o embalado Galo. O Tricolor precisava fazer a sua parte e contar com tropeço de Vasco ou Santos. Não era uma grande combinação, mas, para os comandados de Rogério Ceni, um verdadeiro milagre.
Afinal de contas, quem realmente tinha confiança no Bahia diante do que a equipe fez contra Santos, São Paulo, Athletico e América-MG, por exemplo? Na verdade, muita gente. Pelo menos os 27 mil torcedores que foram para a Arena Fonte Nova, na última quarta-feira, e empurraram o time do início ao fim, mesmo após o empate de Paulinho.
Desta vez, os jogadores do Bahia retribuíram o carinho dos torcedores com uma sonora goleada. Além disso, a equipe contou com derrota do Santos para permanecer na Série A e respirar aliviada.

Juba comemora gol que tirou o Bahia do Z-4 de uma vez por todas — Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia
No fim das contas, o Bahia de Rogério Ceni alcançou o seu principal objetivo no ano. Os próximos dias vão ser de euforia e muito alívio com a permanência na Primeira Divisão. Mas também precisa ser de muito trabalho e consciência de que a temporada poderia ter sido muito mais tranquila. Ao menos os seus torcedores mereciam isso.
Fonte:G1-Ba

