Construção irregular que ameaça terreiro mais antigo do Brasil segue em obra mesmo após interdições

Construção irregular que ameaça terreiro mais antigo do Brasil segue em obra mesmo após interdições

obra irregular construída na área acima do Terreiro da Casa Branca, em Salvador, segue em andamento mesmo após a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur) ter feito duas interdições no local.

Uma equipe de reportagem da TV Bahia flagrou homens trabalhando normalmente na obra, na quinta-feira (30). O templo religioso é o mais antigo do Brasil e foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) há quase 40 anos.

A última interdição pela Sedur foi feita na última quarta-feira (29), depois que as equipes encontraram material de construção no local. A obra começou em 2018 e o primeiro embargo havia sido feito em setembro de 2022, porque a construção não possui alvará de permissão.

Integrantes do terreiro mais antigo do Brasil denunciam medo de obra na BA desabar — Foto: Reprodução/G1

A secretaria informou que caso não possa ser regularizada, o proprietário – que é um policial militar – sofrerá as medidas cabíveis, a exemplo da demolida do imóvel, que já tem cinco andares. A altura do prédio, que ainda não foi concluído, é um dos fatores de preocupação para os religiosos do terreiro.

Ogã do Terreiro da Casa Branca, o sociólogo Ordep Serra chamou a atenção do poder público para a que se cumpra a lei federal de preservação dos patrimônios públicos.

“Nós estamos vendo um escândalo, uma vergonha, um vexame para o poder público municipal. É um insulto, além de ser uma agressão à lei federal, porque esse terreiro é tombado pela União”.

“É como dizer: ‘o patrimônio brasileiro nada vale, qualquer pessoa pode fazer o que quiser’. Aqui é uma área de proteção rigorosa, não poderia ter edificação nenhuma aí. Como é que se consegue fazer uma edificação de cinco pavimentos?”, questionou.

Irregularidades

Especialistas encontraram várias irregularidades na estrutura da construção. O engenheiro e membro do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), Marcos Botelho, apontou algumas dessas falhas.

“Olhando a estrutura, por exemplo, tem descontinuidade em dois pilares. Tem pilares que estão descontínuos, são situações que na engenharia não são recomendas, mas são possíveis de serem feitas quando se calcula a estrutura para ela se comportar bem com relação a isso. E como a gente sabe que não houve projeto estrutural, isso é preocupante sim”.

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia disse que a obra foi fiscalizada em agosto de 2021, e que foi solicitada a apresentação de um engenheiro. A documentação fornecida pelo proprietário foi insuficiente para determinar a responsabilidade técnica da execução da obra.

O Iphan também faz vistorias técnicas no prédio desde 2021 e destacou é uma infração administrativa a construção, sem prévia autorização, em áreas vizinhas a patrimônios tombados, como destaca Ordep.

“Essa área toda é uma Zeis [Zonas Especiais de Interesse Social]. Em uma Zeis não se pode ir além de três pavimentos. Aqui não seria permitido nada se fosse observada a lei municipal. Ofende-se a lei municipal, a lei federal, insulta-se o patrimônio. Isso é um vexame. Essa construção é obscena”.

A área do terreiro ameaçada pela construção fica exatamente em cima da Casa de Omolu, o orixá guardião da saúde, doença e morte.

Ministério Público acompanha caso

Integrantes do terreiro mais antigo do Brasil denunciam medo de obra desabar — Foto: Reprodução/G1

Também há dois anos, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) entrou no caso, após ser acionado pelo próprio terreiro. A promotora Hortência Pinho também confirmou as irregularidades da obra.

“A gente fez três audiências e duas inspeções e chagamos à conclusão de que realmente há uma irregularidade flagrante e uma situação de risco na obra, uma vez que ela não tem alvará de construção e não tem projeto – nem arquitetônico, nem estrutural”.

Além das questões relacionadas à estrutura física, fotos cedidas pelo próprio MP-BA mostram que as janelas da construção estão voltadas para o terreiro e que em um dos andares do prédio funciona uma boate, em que festas já foram realizadas. O PM dono do imóvel já foi ouvido pelo órgão.

“Ele foi ouvido aqui no Ministério Público, a gente teve o depoimento dele ainda no ano passado. Ele informa que almeja regularizar a obra, e que é um trabalhador que está se esforçando para formar um patrimônio familiar”, disse a promotora Hortência.

História do Terreiro da Casa Branca

O Terreiro da Casa Branca foi fundado no século XIX. O primeiro local sede do espaço sagrado ficava na Barroquinha, entre 1820 e 1830. Depois disso, o templo sagrado foi transferido para o Engenho Velho da Federação, no período entre 1860 e1870, e está lá desde então.

O Casa Branca foi o primeiro primeiro centro religioso não-católico a ser reconhecido como patrimônio pelo Ministério da Cultura (Minc).

Fonte:g1-ba

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